Um outro outro mundo

As casas aqui são diferentes. São pequenos mundos, às vezes tortas, às vezes arredondadas, sem sentido (no bom sentido). Têm algo de infância, como se fossem obras de crianças que acham uma cor divertida hoje, outra cor amanhã, e outra no dia seguinte. “E se a gente fizer um castelo lilás?”

A gente brinca de construir paredes e tetos e colocar coisas dentro das caixas que se formam. E depois colorir as paredes e o teto e o piso, e depois apagar e colorir de novo, e então trocar tudo de lugar. E às vezes derrubar alguma coisa para que outra forma se liberte.

Entro pelo portão velho. São dois passos até o cheiro de café. Uma porta de alumínio se abre e estou em outro mundo. Samambaias, girassóis, dois gatos dormindo lado a lado num antigo banco de madeira, banco de praça. A cozinha é iluminada, bastante. São três degraus até a sala de estar, com uma TV ainda de tubo.

“Não sei pra que essa escadinha, mas já era assim quando a gente mudou pra cá.”

O quarto fica em cima, e a ele se chega por uma escada caracol.

Escada caracol, isso que tanto me fascinava quando criança. Imaginava uma escada em cima da outra, levando a um cômodo diferente do anterior. Vários mundos em sequência, subindo, subindo, subindo. Imagina! Tem gente vivendo lá em cima, e também depois do lá em cima, mais alto ainda. E basta uma escada caracol, você girando em torno do mesmo eixo, praticamente sem sair do lugar (eixo x), mas subindo sem parar (eixo y). João e o Pé de Feijão. Joana e a Escada Caracol.

Na sala há um relógio de cuco, parado, mas ainda um relógio de cuco. “Uma graça quando funcionava, fia. Tinha que ver.” E, ao lado, uma estantezinha de vidro. Parece que a qualquer instante ela pode se quebrar.

Dentro da estante, vários porta-retratos com fotos antigas. Uma senhora de vestido rodado posando ao lado de uma roseira.

“Quem é?”

“Dona Aurora, uma vizinha minha, mulher muito boa. Ela que me deu aquela toalhinha amarela. Já morreu.”

No sofá, outro gato que dorme.

Gatos sabem tudo de nós.

O cheiro do café.

Na janela, outro girassol. Do lado de lá, o muro. E, olhando por cima do muro, a pontinha do telhado do vizinho. No fundo do quintal dele, uma árvore imensa, que não se vê da rua.

“É pé de jaca, fia.”

Um outro outro mundo.

De volta

É preciso reaprender a andar. A andar e pensar ao mesmo tempo, mas não pensar no andar (“caramba, estou andando por esta rua”), pensar em outras coisas, nas obsessões, no que já foi e no que pode ser. Movimento para um lado, pensamento para o outro.

É preciso lembrar onde está a bolsa e em que lugar dela vai a chave de casa. Onde estão os óculos escuros, que eu sei que tinha. Sim, eu tinha. Comprei pela internet. Onde deixei? Não faço ideia. Vou sem, mesmo. Claro.

É preciso reaprender a estar entre calçadas e prédios altos. A desviar do pipoqueiro. A lembrar que posso comprar pipoca do pipoqueiro – por que será que parei de fazer isso no correr da adolescência? Pipoca mista, por baixo a salgada, por cima a doce.

– Nossa, não é o contrário?

– Hahahah. Não. Começo pela doce mesmo.

– Tá bom. Aqui é o cliente que escolhe.

Churrasco grego. Um Habib’s. Uma lata de lixo virada e revirada. Uma pessoa dormindo debaixo de um cobertor cinza. Um cachorro preto de coleira amarela. Uma loja de tecidos coloridos. Uma galeria de eletrônicos. Um cinema pornô. A calçada esburacada. Uma poça com bituca de cigarro.

Um rapaz musculoso saindo da academia. Um senhor de valise e terno marrom que não pertencem mais a este tempo. Mas quem sou eu para afirmar coisas como essa? Se a valise e o terno estão aqui, agora, então este é o tempo deles também.

É preciso reaprender onde estão os lugares. As direções, os sentidos, para onde ir sem precisar abrir o Google Maps de novo e de novo. O que existe ali? Eu já não me lembro mais. Já estive aqui? Sim, mas compondo outro personagem.

Meu lugar favorito fechado. Em definitivo, será? A internet ainda não sabe responder – ou eu que já não sei mais como perguntar. Dizem que todos desaprendemos muito nestes últimos tempos.

Semáforo fechado para os pedestres. Há quem atravesse correndo. Eu, não. Já não confio tanto em mim mesma.

– Moça, pra onde fica o Anhangabaú?

– Nossa, sou ruim de direção aqui. Mas acho que é só seguir reto ali.

– Ali, né? Acho que é mesmo. Brigado, preciso correr que tô atrasado.

Agora gosto quando me pedem direções. Mesmo que eu não saiba responder.

É tudo que dói

Tinha isso de não conseguir explicar onde estava a dor ou o mal-estar. Dói o estômago? O peito? A lombar? A resposta vinha em forma de silêncio, respiração pesada e olhos fechados. Era assim em casa e no hospital, para onde os familiares a levavam sempre que a encontravam na cama em posição fetal e incapaz de falar.

Naquele dia o prontuário indicava “cólica renal” – o melhor palpite do médico plantonista –, mas por dentro dela as dores físicas eram também as dores da existência. As costas doloridas eram o mesmo que os amigos que morreram nos últimos anos – o mundo dela, que começara a desaparecer antes dela mesma (é sempre assim, dizem). A náusea era o mesmo que a falta de sentido, disfarçada com invencionices (passar creme anti-idade na cara, por exemplo). A cãibra no ventre era o mesmo que o tempo escorrendo pelo ralo de um dia após o outro, a vida gasta num lugar do qual ela nunca gostara de verdade (embora não admitisse isso nem para si mesma).

Mas os analgésicos sempre tinham algum efeito. Passadas algumas horas, a névoa de mal-estar ia ficando menor e menor, dobrando-se sobre si mesma até se esconder em algum canto da alma/corpo. E a mulher retomava suas atividades normais: ir ao supermercado, ligar para a revendedora da Natura, preparar aulas, assistir ao telejornal, descongelar lasanha no micro-ondas. Até um estalo de qualquer coisa deslocar as moléculas e percepções novamente.

Um dia os analgésicos não servirão mais.

Dona Rose

A única coisa estranha sobre Dona Rose é que ela tem essa mania de andar irritada com… Como dizer? É difícil escolher uma palavra… “Presença”, talvez? Pois bem: ela está sempre irritada com uma “presença” (melhor com aspas) que “caminha” ao lado dela – e que ninguém, além dela, consegue ver.

Dona Rose vai ao mercadinho normalmente, compra coxinha na lanchonete, vai à feira, abre a bolsa para retirar algumas notas bem dobradas de dinheiro, usa um lenço rosa com bordado para enxugar o suor que às vezes lhe desce pela testa, pede licença, agradece, faz contas de cabeça… E, de repente, solta um “shhhiu”, sacode um dos braços, olha para o lado e diz para a tal “presença” ir embora. Nunca funciona.

— Shhhhiu. Sai daqui! Sai! Vai embora! — Ela dá um suspiro e olha para a moça do caixa. — Cinco e quarenta, né? Só um minutinho que acho que tenho moeda pra facilitar o troco. Aqui… Obrigada!

Quase ninguém tem coragem de perguntar para Dona Rose quem é que, afinal, a acompanha todos os dias e a irrita tanto. Mas houve uma manhã, na feira de sábado, em que o rapaz da barraca de pastel decidiu tirar a dúvida.

— Mas com quem é que a senhora tá brava?

— Ai, é com ele aqui. Me enche a paciência o dia todo…

— Mas quem é ele? Eu não consigo enxergar. Não vejo ninguém aí.

— Ah, moço, nem vale a pena você conhecer.

E então ela olha irritada para o lado, como que ouvindo o que a “presença” tem a dizer por alguns segundos. Dona Rose faz uma cara de impaciência, encara o rapaz do pastel e continua:

— Ah, lá. Ele tá dizendo que não quer saber de conhecer você também, não, moço. Esse fardo é só meu… Quanto que eu pago hoje?

Nada

Começou contando que tinha estudado Direito em uma “faculdade de primeira linha” e feito uma pós em Filosofia. Depois de trabalhar por dez anos em um “grande escritório”, viu suas vontades sumirem uma a uma. Desfez um noivado de meia década, não viu mais sentido em batalhar por uma casa própria, vendeu o carro, desistiu do MBA, considerou que o pouco que conhecera de outros países já era suficiente para uma vida inteira.

Pediu demissão para abrir um negócio próprio e, por fim, entendeu que o plano mal feito de empreender era só uma desculpa para perseguir o único desejo que lhe restara: se livrar de todo o verniz até chegar ao núcleo vazio de uma vida insignificante – “ou do que seria uma vida insignificante nessa sociedade”.

– Por que você queria isso?

– Não sei… Mas ninguém é livre pra desejar o que deseja.

Ele queria olhar na cara do Nada. Logo atrasou o aluguel, perdeu a casa e passou a viver em uma barraca num pequeno gramado entre duas avenidas. Era o lugar perfeito para suas ambições: não era praça, nem largo, nem rua, nem terreno; era coisa nenhuma, um vácuo no espaço urbano, dessas frestas em que se enfiam as pessoas invisíveis.

Mas o pouco querer do espírito não foi acompanhado pelo pouco querer do corpo. Ainda sentia fome e sede, e os aromas do restaurantezinho da esquina lhe obrigaram a (primeiro ato) pedir esmolas e (segundo ato) vender chicletes no semáforo. Conseguia comprar um PF barato por dia.

– Vivi assim por três anos.

– E você encontrou o Nada?

– Não… porque o Nada não existe. Quando você acha que tá olhando pra ele, na verdade tá olhando pro mesmo de sempre, só que de outro ângulo.

Perto de seu aniversário de 40 anos, recebeu uma pequena herança (“sem sorte, a vida é impossível”). Não sabia o que fazer com o dinheiro, até que um dia acordou com uma vontade esquisita de descer a serra e ver o mar. Passou o dia atordoado por esse desejo repentino e pegou no sono só de madrugada. Acordou no segundo dia com a ideia de abrir um bar na periferia de alguma cidade de praia. Acostumado com as vontades que enfraquecem até sumir, achou que essa logo iria embora também. Mas ela persistiu no primeiro mês e, no segundo, ficou ainda mais forte.

E aqui estamos, neste lugar pequeno que cheira a coisa velha, mas com cerveja gelada e batata frita.

– E o que você acha da vida agora?

– Que ela não faz sentido nenhum… Mas mesmo assim existe o mar, né?

“Pneumotórax”: releitura

Sonolência, dor de cabeça, confusão mental e azia noturna.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tela, cansaço, mais tela.
Marcou uma consulta virtual pelo app do convênio:
— Você tem alguma doença pré-existente?
— Não que eu saiba, doutor.
— Vou pedir um check-up. Glicemia, colesterol fracionado, TSH, testosterona livre…
……………………………………………………………………….
— A senhora está com vitamina D baixa e sintomas depressivos.
— Então, doutor, não é possível tentar um tarja preta?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino… Brincadeira! Vou te receitar paroxetina.

A boneca

A menina correu com a boneca para o armário debaixo da escada. Brincava de se esconder de ladrões que haviam invadido a casa em busca de um cofre secreto, cheio de barras de ouro, diamantes e colares de pérolas enormes. Herança da bisavó, que encontrara todo esse tesouro num baú muito velho, enterrado no sítio em que ela plantava alface e hortelã.

– Shiu, Maria Clara, que senão vão ouvir a gente. Não chora, Maria Clara!

Não entendia por que os adultos estranhavam que ela e a boneca tivessem o mesmo nome. Eles não aceitavam que a boneca era ela, e era filha dela também, tudo ao mesmo tempo. Mãe, filha e a espírita santa.

– Que boneca bonita. É sua filha?

– É.

– E como ela se chama?

– Maria Clara.

– Ué, tem o mesmo nome que você?

– Tem.

– Mas sua filha tem que ter um nome diferente do seu…

– Mas eu não quero.

Quando a mãe disse que ela só poderia fazer tatuagem depois de ficar adulta, a menina pegou uma caneta preta e desenhou no braço esquerdo da boneca a flor que ela queria ver em si. Quando foi mal na provinha da escola – “tem que prestar mais atenção, Maria Clara”, disse a prô –, atirou a boneca na parede do quarto porque toda nota ruim tem que ter um castigo, e ficar trancada no quarto treinando caligrafia não era o suficiente.

– Poxa, filha – o pai reparou, dia desses. – Você tá destruindo sua boneca.

Maria Clara deu de ombros e continuou carregando a boneca rabiscada e suja por aí. Cortou os cabelos usando uma tesoura escolar, pintou as unhas com canetinha, encheu o outro braço com desenhos de flores e gatos tortuosos.

E ali, dentro do armário debaixo da escada, Maria Clara menina e Maria Clara boneca treinavam a habilidade de ficar em silêncio, de sumir sabendo-se sumida, de esconder o mundo escondendo-se dele.

Lá fora, o som de passos… chegando mais e mais perto.

Visite o decorado

Pop, New, Sky, Cloud, Style, Life, Up.

Lazer no rooftop, novo conceito de lavanderia coletiva, fitness, serviços pay-per-use, coworking, enoteca, pet care, outlet, yoga room, barber shop, beauty center.

Estilo e sofisticação. A 200 metros do metrô, a 400 metros dos melhores restaurantes e cafés, a 700 metros do clube mais desejado da capital, a 800 metros do shopping mais atraente da zona sul.

A satisfação de ter duas portas sociais e um terraço gourmet. Uma ou duas vagas na garagem, spot exclusivo para sua bike retrô. Espelho d’água. Portaria remota.

Porcelanato imitando madeira, samambaias de plástico, revestimento de tijolinho PVC, tapetinho de grama sintética.

Colocou uma garrafa de cerveja artesanal no congelador e programou o timer para 20 minutos. Tinha esquecido de anotar uma última coisa na lista de compras: “óleo de coco”. Minto, penúltima, porque acabara de lembrar de outra: “sal rosa”.

Mas iria às compras só à noite, o que significava que teria uma tarde vazia inteira pela frente.

Sentou-se no sofá de veludo rosa millennial e encarou o enorme espelho de parede que simula amplidão. Abriu o MacBook Air, depois o Safari e saiu navegando por redes sociais e lojas online, todas bem trabalhadas no funil de vendas. Ah, o gozo mental de um marketing digital bem feitinho.

“Primeira compra? Informe seu e-mail e ganhe 20% de desconto. 😉
*Desconto válido para compras acima de R$ 350,00″

E, nos 28 metros quadrados recheados de marcenaria esperta, depois de olhar cinco sites de moda e encomendar uma jaqueta parka sarjada com capuz, o que aquele ser humano queria mesmo era…

Wallpaper

Trocar a capinha do celular, a proteção de tela do computador, o plano de fundo… Talvez uma árvore? Não, um elefante, ou um espirrar de muitas cores, ou um jogo engraçadinho que coloca os ícones dos aplicativos em prateleiras (que não são prateleiras). Isso não é uma prateleira.

Trocar a disposição dos móveis, as cortinas, os quadrinhos na parede. Também o wallpaper do WhatsApp… Às vezes quero que minhas conversas flutuem sobre uma imagem de praia. Um alento para o eu do futuro: a conversa é tensa (ou triste), mas lembre-se do sol e do vento. Não confunda os mundos. A parte não é o todo.

Lembro agora que imagens de planetas e luas também nos servem bem… Apesar de tudo, somos poeira, um nada… e é bom ser nada. “O que é esse problema perto da imensidão do universo?” Já me disseram isso, e na época funcionou.

Mas nem seria preciso pensar tão grande: o que é esse problema perto do sofrimento que está ali na esquina? “Qualquer dez centavos, senhora.” Uma ideia perigosa essa, de que há sempre alguém sofrendo mais… e que o único remédio é a gratidão. Mas disso vocês já sabem, já problematizam, não há muito que eu possa acrescentar.

Uma lhama… Hoje, é uma lhama em alta definição que quero ver ao acender a tela do celular. Isso não é uma lhama.

Egídio

A notícia correu rapidamente pelo prédio. Dona Telma, do 66, tinha um ser de estimação estranho. Exótico. Estava com ela há bastante tempo, ao que parece. O bom, concluía-se em conversas arrastadas de elevador, é que pelo menos não fazia barulho nem perturbava os vizinhos.

“É tipo um camaleão?”

“Não exatamente.”

“Tipo um porco? Tem gente que tem porco em apartamento.”

“Também não.”

“Como que é, então?”

“Calma, que você logo vai ver.”

Cada um calçou seu chinelo e subiu a escada rumo ao apartamento da Dona Telma.

A dupla chegou, tocou a campainha, e quase imediatamente a moradora do 66 abriu – como se não apenas já soubesse da visita, mas também a aguardasse com alguma ansiedade.

“Oi, Dona Telma. Eu trouxe o menino para conhecer o Egídio.”

“Ah, sim, sim. Vamos entrando, vamos entrando. Fica à vontade, é só ir lá para o meu quarto.”

A mãe puxou o filho pela mão esquerda em direção ao quarto. Ela mesma estava ansiosa para ver mais uma vez aquilo que ninguém sabia definir.

O garoto não viu a cama bagunçada, as roupas sujas acumuladas no canto, nem o quadro de praia torto ao lado da janela. Olhava atônito para a parede oposta à porta.

“Esse é o Egídio?”

“É.”

Egídio era um enorme buraco, fixo na parede a dois palmos da cabeceira da cama. Uma elipse quase perfeita, um metro e meio de largura por uns 40 centímetros de altura.

Não dava para o outro lado da parede. Dava para o nada. O nada absoluto, o vazio. Não fazia barulho, nada. Nada havia ali. Nem cor, nem cheiro, nem vida. Nem morte.

O menino ficou encarando o buraco por alguns segundos.

“E o que ele faz… esse Egídio?”

“Ele me lembra, fio”, respondeu Dona Telma. “Ele me lembra como a gente se sente quando olha para o nada.”

“E por que se chama Egídio?”

“Era o nome do meu marido.”

O marido de Dona Telma – essa era a história que agora corria de boca em boca entre os andares – havia ido embora 30 anos atrás. “Do nada”, ela dizia, embora nem todo mundo acreditasse (“algum motivo tinha que ter, não é possível”).

Para quem se interessasse, Dona Telma contava a história de bom grado. Em resumo, ocorrera que Egídio, o então marido, dizia estar cansado, confuso, agoniado. Não queria conversar nem procurar um médico, nem um padre, nem uma benzedeira. Nada disso. Fez uma mala e saiu. Foi embora para nunca mais voltar. Sumiu. Evaporou-se.

No dia seguinte à partida de Egídio, começou a brotar aquele buraco na cabeceira da cama. Dona Telma inventou para si mesma que aquilo era uma transmutação da presença-ausência do homem que por 12 anos dividira aquele espaço com ela. Egídio.

“E não dá pra tirar ele daí?”

“Não, fio. Eu já tentei, e não sai por nada. Nem com água sanitária… Mas a verdade é que acabei me acostumando com ele aí.”

“E se pintar por cima?”

“Já tentei também, mas a tinta não pega.” – Dona Telma deu um rápido suspiro de frustração. – “Acho que vou é encomendar um espelho pra botar em cima.”